Saber o momento certo de buscar ajuda pode ser decisivo para manter o negócio funcionando
O avanço do endividamento no Brasil tem ultrapassado o universo das famílias e atingido de forma significativa o setor empresarial. Dados recentes apontam que o número de empresas com dívidas em atraso alcançou níveis recordes, refletindo um cenário econômico desafiador marcado por juros elevados, restrição de crédito e oscilações no consumo. O movimento acompanha uma tendência já observada entre os consumidores. Hoje, cerca de 79,5% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
No ambiente corporativo, a pressão é ainda mais complexa, custos operacionais em alta, queda no fluxo de caixa e o uso frequente de linhas de crédito emergenciais, como capital de giro e antecipação de recebíveis, têm contribuído para um ciclo de endividamento difícil de reverter.
De acordo com o advogado especialista em Direito Bancário, João Marques Silva, existem sinais claros de que a saúde financeira da empresa está em risco e que exigem atenção imediata. “O empresário precisa monitorar indicadores básicos como fluxo de caixa operacional negativo por mais de 60 dias, crescimento da dívida acima da receita, dependência de crédito de curto prazo para pagar despesas fixas e uso recorrente de cartão de crédito. Quando a empresa passa a depender de crédito para operar, o problema já está instalado, mesmo que ainda não tenha sido percebido formalmente”, explica.
O especialista destaca que o crédito pode ser um aliado, desde que usado com estratégia. “O crédito é uma ferramenta quando financia crescimento ou atravessa uma sazonalidade previsível. Mas vira armadilha quando é usado para pagar dívida com dívida, especialmente quando o custo é maior do que a capacidade de geração de caixa do negócio”, afirma.
Na prática, isso significa que muitas empresas acabam operando apenas para quitar juros, sem conseguir reduzir o valor principal das dívidas. Em um ambiente de taxas elevadas, como o brasileiro, esse desequilíbrio pode acontecer rapidamente e comprometer toda a operação.
Segundo João Marques Silva, existem diferentes caminhos jurídicos para lidar com o endividamento, mas a escolha depende do momento da empresa e do tipo de dívida. Ele chama a atenção para um perfil cada vez mais comum no mercado: empresas que, apesar de manterem fornecedores, impostos e folha de pagamento relativamente em dia, acabam concentrando o problema no sistema bancário.
“Hoje vemos muitos empresários que não estão em colapso operacional, mas se afundaram no crédito bancário para conseguir manter tudo funcionando. Esse é um perfil que exige uma estratégia diferente, muitas vezes focada na revisão de juros e na reestruturação dessas dívidas financeiras, antes de medidas mais complexas”, destaca.
Nesses casos, a revisão de juros bancários e a renegociação estruturada ganham protagonismo como alternativas mais direcionadas e eficazes. “Nem toda empresa precisa, ou está pronta, para uma recuperação judicial. Em muitos casos, o problema está concentrado em contratos bancários com taxas elevadas, e é aí que uma análise técnica pode gerar fôlego financeiro e reequilibrar a operação”, explica.
Ainda assim, o especialista reforça que existem situações mais críticas, em que a empresa acumula dívidas com diferentes credores, como bancos, fornecedores, tributos e obrigações trabalhistas. Nesses cenários, instrumentos como a recuperação judicial podem ser indicados para organizar os pagamentos de forma mais ampla. “A recuperação judicial é recomendada quando a empresa é viável, mas está sufocada por um passivo maior e mais complexo. O erro mais comum é buscar essa alternativa tarde demais”, pontua.
Para empresários que já operam no limite do fluxo de caixa, a orientação é agir com rapidez e estratégia. “A primeira medida é interromper o uso de crédito caro para sustentar a operação. Em seguida, é essencial mapear todas as dívidas com clareza, credores, prazos, taxas e garantias. Com essas informações, é possível priorizar negociações e construir uma estratégia jurídica viável”, orienta.
Em um cenário de instabilidade econômica, informação, planejamento e apoio especializado são fundamentais para evitar o agravamento das dívidas. Mais do que recorrer a soluções extremas, entender a origem do problema e agir no momento certo pode ser o diferencial para preservar o negócio e retomar o equilíbrio financeiro.


